sidemenu-retrato-IAIS.png

Malta!

Bem-vindos ao I am Isabel Silva. Escrevo sobre a minha vida, os meus alimentos, as minhas corridas, o meu Caju. Espero que desfrutem.

Os 15 minutos mais intensos da minha vida (em que quase acabei dentro do Tejo)

Os 15 minutos mais intensos da minha vida (em que quase acabei dentro do Tejo)

Foi uma daquelas experiências que vou recordar durante muitos anos. Não sabia ao que ia, e acho que o efeito surpresa tornou a coisa ainda melhor.

Passei 33 anos da minha vida a pensar que os desportos náuticos não faziam o meu género. Sempre gostei mais de desportos em terra, porque sinto que, nestes casos, estou dependente de mim, sou eu que estou no controlo. Se quiser ir correr, pego nas sapatilhas e vou, se me estiver a sentir mal e tiver de parar, paro. 

Pelo contrário, nos desportos náuticos há outro elemento: o mar. Quando vamos velejar ou surfar, vamos porque os ventos estão a favor ou porque as ondas estão boas. A juntar a isto, ao longo dos anos, fui ganhando cada vez mais respeito pelo mar. Se antes costumava mergulhar de cabeça, hoje entro sempre, como costumo dizer, “à patinho”. Tornei-me mais consciente dos perigos ligados ao mar, o que me faz ser mais reticente  e pensar duas vezes antes de me aventurar num qualquer desporto náutico. Portanto, sempre achei que não ia sentir adrenalina em relação a estes desportos. Claro está que me enganei redondamente. 

A primeira vez que me aventurei no mar foi há dois anos, quando aprendi a surfar. A experiência foi incríBel e adorei tanto que continuei a praticar durante algum tempo, até começar a preparar-me para uma Maratona e ter de parar, isto porque tinha receio de me lesionar naquela fase. Depois, ainda tive oportunidade de experimentar Stand Up Paddle, quando passei uns dias no hotel Feel Viana — recordem a experiência aqui — e na verdade as únicas vezes que tinha tido contacto com o mar. Claro que não estou a contar com os passeios de banana, pneus e gaivota que fazia durante as férias com os meus pais, embora até esses causassem alguma adrenalina. 

Sou uma pessoa que adora desafios, e acredito que a melhor forma de combatermos os nossos medos é enfrentando-os de frente. Por isso, quando recebi o convite para ser uma das embaixadoras da Regata de Portugal, aceitei. Gosto de iniciativas relacionadas com desporto, e a verdade é que esta Regata prometia ser muito mais do que uma prova. Havia festa, arraiais, sunsets com DJ e dava-me também a oportunidade de conhecer pessoas ligadas a um meio que, para mim, era totalmente novo. 

Quando me falaram no assunto pela primeira vez, sabia lá eu o que era um Diam 24, que são aqueles barcos estilo Fórmula 1. Já os tinha visto algumas vezes, mas nem sabia que tinham esse nome e muito menos que uma regata tinha várias equipas em competições de 15 minutos. Era um mundo totalmente novo para mim, mas tudo mudou no dia da inauguração da Regata de Portugal. 

A inauguração

Neste primeiro dia, tive a oportunidade de contactar com algumas pessoas desta área que, até então, me era totalmente desconhecida. E só o simples facto de ter estado ali a assistir ao pôr do sol durante um passeio de barco, sentir a brisa do mar, andar pelo Tejo e ver, lá ao longe, a cidade de Lisboa em grande plano, fez-me logo perceber que aquela ia ser uma das grandes aventuras da minha vida. 

E porquê? Porque não ia estar só ali a assistir às provas ao longe. Eu ia ter a oportunidade de estar num dos hot seat, ou seja, estar ao lado dos velejadores num destes barcos de competição, durante a prova. E aqui vocês perguntam “e sabias ao que ias?”, e é com toda a certeza que vos digo: não, de todo. Mas já lá vamos. 

Esse final de tarde foi espetacular. Conheci vários jornalistas ligados a esta área, conheci os responsáveis pela organização da Regata e ainda tive a oportunidade de conversar com alguns velejadores portugueses. Só de ver o entusiasmo deles e de ouvir aquela explicação de como funcionava a Regata, fiquei logo com um bichinho e com vontade de participar.

190531_RdP_RP7203.jpg

A minha primeira viagem

No primeiro dia de provas, lá estava, pronta para participar em todas as atividades. Nesse dia, além de ser uma das embaixadoras da Regata de Portugal, ia também fazer reportagens para o Arraial da TVI, que acontecia mais tarde, e havia ainda um palco flutuante com um DJ a passar música ao final do dia, enquanto podíamos observar o por do sol.

Foi também neste primeiro dia de provas que tive a oportunidade de acompanhar três velejadores num dos Diam 24 que iam estar a participar. este, em particular, era o Diam 24 no qual estavam três holandeses, que eram a equipa da TVI. Antes de entrar no barco, ainda consegui falar um pouco com eles em inglês, mas depois, durante a prova, eles passaram o tempo todo a falar em holandês. Confesso que não sei se foi por ser mais confortável para eles, ou se queriam que eu não percebesse patavina do que estavam para ali a falar.

190531_RdP_RP1388.jpg
b60fc2ad-fd0b-48d6-b7a1-aa7e6c573868.jpg

E agora vocês perguntam, “então mas tu não temeste que alguma coisa de mal podia estar a acontecer?”, é claro que sim, até porque não sabia ao que ia. Até vos digo mais, disseram-me que era capaz de me molhar um pouco, mas quando sai do barco estava completamente encharcada. 

Tudo começou com uma viagem num barco a motor, que nos levou do cais até à regata, em alto-mar. Colocaram-me um colete salva-vidas e lá fui, pronta para a aventura. Tenho-vos a dizer que ainda pensei — estupidamente — que quando lá chegasse ia ter uma espécie de banco onde estaria sentada, mas não. Na verdade vamos ali estendidos e parece que não há segurança nenhuma, mas é claro que está tudo seguro. 

31633fe3-ff60-4977-9b84-17031d084878.jpg
190531_RdP_RP1375.jpg

Se preferia ter ido com velejadores portugueses? Claro que sim, até porque não percebia absolutamente nada do que estes holandeses estavam a dizer. A única coisa que eles me disseram, ao início, foi para me agarrar às cordas e “go with the flow”, ou seja, aproveitar bem e desfrutar ao máximo a experiência. Acho que eles tinham a sensação de que estava habituada a estas andanças, mas depois perceberam que não, quando comecei a gritar. Não tanto de medo, mas de entusiasmo e euforia. Só lhes perguntava se estava tudo bem, ao que eles respondiam que sim, “just relax and enjoy”.

O que mais me fez confusão em toda esta aventura nem foi a velocidade — e um barco destes pode chegar aos 45 quilómetros por hora —, mas o que me deixou, de certa forma, desconfortável, foi a forma como os velejadores falavam entre si. Parece que estão todos irritados uns com os outros, mas depois acabei por perceber que tudo aquilo era normal. Confesso que ao início pensei que havia algum problema e, como não dava para mergulhar aquela velocidade, tudo aquilo ia acabar muito mal. 

6c7b03f3-5ae9-42ed-8b95-b76b2df0e9a1.jpg
190531_RdP_RP1308.jpg

A verdade é que não acabou, e como podem ver nesta fotografia, o trimarã está totalmente inclinado. Vocês podem não conseguir ver, mas eu sou aquela que está ali escondida. Naquele momento, senti o meu corpo a raspar no rio, parecia um plano picado em que eles estavam os três lá em cima, e eu cá em baixo. Este foi o momento em que senti mais receio, mas eles diziam-me que estava tudo bem, olhavam, sorriam, e eu ficava mais tranquila. Sabem como quando têm medo de andar de avião mas está sempre alguém com uma cara simpática e vocês acreditam que está tudo a correr bem? Pronto, foi mais ou menos isso que senti neste momento.

Depois disso, foi relaxar e aproveitar e, no final, senti que aqueles foram os 15 minutos mais longos da minha vida. Senti adrenalina como já não acontecia há muito tempo e há momentos de receio, mas também pude desfrutar desta experiência ao mais alto nível. Só conseguia pensar “estou na Regata de Portugal, num hot seat, com três holandeses, a ver o Tejo e Lisboa lá ao fundo”. 

Já pensaram bem quando é que foi a última vez que fizeram alguma coisa que nunca tinham feito? Se não se lembrarem, a vossa vida anda feita um secador. Eu não fazia algo novo há tanto tempo e, acreditem, é incríBel quando saímos da nossa zona de conforto e experimentamos coisas novas. Deixamo-nos levar por sensações totalmente novas para nós. É uma adrenalina única.

Claro que houve momentos em que quis parar, mas não dava. Era aproveitar ao máximo. Sai do barco completamente encharcada, mas com uma sensação revigorante de liberdade. A mesma que tenho quando corre à beira mar, com esta brisa impagável.

190531_RdP_RP7321.jpg
190531_RdP_RP7318.jpg

A viagem com a equipa portuguesa

Para tirar as teimas, os manos Lima, o Gustavo e o Jorge, que são os nossos velejadores, já me tinham picado nesse dia a dizer “então vais com os holandeses, e não vens connosco?”, e o que é que pensei? No final da festa, já depois do Sunset e do Arraial, estive com a organização e disse que gostei muito da experiência e tinha de repetir. Não há nada como falar bom português, por isso disse-lhes “olhem, eu amanhã estou aqui de novo, e quero ir no hot seat com os portugueses”, ao que eles disseram logo que sim. 

Tenho pena de não ter fotos deste momento, mas a verdade é que fui com o Gustavo, o Jorge e o José Costa, que formavam a equipa da TVI, e apesar de ter adorado os holandeses, esta equipa foi incríBel. São super bem dispostos, têm uma energia contagiante, são muito experientes e via-se que já andam nisto há vários anos. 

Nesta segunda viagem que fiz no hot seat consegui falar mais com a equipa e, assim, percebi qual é a função de cada velejador. Existe o leme que vai a guiar o barco, o trimmer que afina a vela grande e ajuda deteta os vento mais favoráveis e, por fim, o proa, que tem a responsabilidade de controlar a vela da frente e ajuda a evitar colisões.

e22d1624-53c5-41cf-821f-d00c3e3ad2c8.jpg
190531_RdP_RP1405.jpg

Já sabia que ia adorar esta experiência — se não, talvez não tivesse aceitado este desafio —, mas a verdade é que não estava à espera que me tivesse marcado assim tanto. Ganhei um novo respeito ao mar, ao nosso Tejo e a esta modalidade que, até então, desconhecia. É que uma coisa é ir num barco à vela, outra totalmente diferente é ver tudo a acontecer na primeira fila. Como os velejadores comunicam, a experiência, a técnica, o treino, o conhecimento dos ventos e o excelente trabalho de equipa que aqui se vê.

Os meus parabéns aos nossos velejadores, porque são verdadeiramente incríBeis e tornaram a minha experiência ainda mais especial. A Regata de Portugal vai ficar, certamente, no meu coração e quero muito regressar. E quando se quer voltar onde já fomos felizes, é sinal de que foi mesmo memorável. 

Sinto que terminei em beleza, com os nossos velejadores. E digo-vos, a vida é mesmo isto. É aventura, estar na natureza e com a natureza, ter experiências diferentes. São estas vivências que alimentam a nossa alma e que nos fazem contar a ser feliz.

Obrigada Salvaterra de Magos, são os pequenos gestos que fazem a diferença

Obrigada Salvaterra de Magos, são os pequenos gestos que fazem a diferença

Eu aceitei o desafio: em julho, vou dizer não ao plástico de utilização única

Eu aceitei o desafio: em julho, vou dizer não ao plástico de utilização única