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Malta!

Bem-vindos ao I am Isabel Silva. Escrevo sobre a minha vida, os meus alimentos, as minhas corridas, o meu Caju. Espero que desfrutem.

Maratona de Berlim, dia 3. A importância de correr com a cabeça limpa

Maratona de Berlim, dia 3. A importância de correr com a cabeça limpa

Pouco importa se nos preparámos bem ou mal, se a prova tem muitas ou poucas subidas. Se cá dentro não estivermos a sentir a cena, se as sensações não forem boas, é quase certo que algo vai correr mal. Foi assim comigo. E tudo começou nos 15 dias antes da maratona. Eu conto tudo neste terceiro episódio da minha experiência na Maratona de Berlim.

Um dos meus barómetros para perceber se uma corrida me vai correr como estava à espera é o meu estado de espírito ao acordar. Chegou o meu dia D, o da Maratona. O meu telefone tocou, olhei para ele e ele disse-me: “Levanta-te e vai correr a Maratona”. Eu li isso, mas não senti “a cena”. Apesar de estar tranquila com aquela sensação, parece que eu sabia que ia ter de mudar a minha estratégia a meio do percurso. Mas porque é que senti isso? Eu explico, mas vou ter de recuar no tempo, aos dias da minha preparação.

Eu sou aquela atleta que gosta de desafios, de sair da zona de conforto, mas, como em tudo na vida, vou sempre com cautela. Acho que tem muito a ver com o meu signo — sou Touro. Os touros gostam de saber aquilo que estão a pisar, gostam de rotinas e não arriscam muito. Eu por acaso sou de arriscar, mas corro riscos calculados. Sempre fui assim, na vida e na preparação para as provas.

A meio da minha preparação para esta maratona, ali entre meados de Julho e início de Agosto, sentia-me muito bem, forte, ágil, veloz e confiante. Tanto o João, que é osteopata, como o Urbano e o Alcídio, que foram os meus massagistas, diziam-me que eu devia“arriscar mais”, que não devia ter medo de começar ligeiramente mais rápido. Isso fazia sentido, até porque sabia que a Maratona de Berlim é muito plana, e isso poderia permitir-me desafiar a minha mente logo no tiro de partida.

 

O que importa é o nosso estado de espírito

 

Aprendi com esta maratona que mais importante do que o percurso, a temperatura, as subidas, é o nosso estado de espírito, a forma como nos sentimos, as sensações que temos. A Maratona de Roma era bastante desafiante — com muitas curvas e empedrado — e foi a que melhor me correu. Porquê? Porque eu tinha a cabeça completamente limpa.

“Tu podes perfeitamente começar a 4’27’’ e manter esse ritmo até ao km 38. Depois, se vires que estás bem, aumentas ligeiramente”, dizia-me o João Catalão, de forma clara e assertiva. Eu valorizo muito a opinião dele, e ele conhece-me bem, porque treina comigo, mas só eu, só mesmo eu é que sabia como tinham sido os meus últimos 15 dias. E eu sabia também que não estava capaz de começar tão rápido. Sabem porquê? Porque eu tinha dúvidas sobre se estava ou não capaz. E quando tem dúvidas, a Isabel não arrisca. Para já, sou assim. Daqui a uns anos logo se vê.

Foi por isto que quando o telefone me disse “Levanta-te e vai correr a maratona” eu tive as minhas dúvidas. Mas levantei-me, comi as minhas incríBeis papas de arroz integral (podem ver a receita aqui), vesti-me e arranquei até à Porta de Brandemburgo.

 

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Como é habitual, lá fui eu para a fila da casa de banho, deitar para fora aquilo que não podia vir comigo. E assim foi. É também por isto que eu gosto de ir sempre para a zona da partida umas duas horas antes do início da corrida, para poder fazer tudo com calma. 

Comi a banana, deixei o saco no bengaleiro e lá fui eu para o bloco D, onde ficaram os atletas que estimavam correr a prova entre as 3h e as 3h15. Foi aqui que nos separámos, eu, o João, o Rui e o Ricardo, porque ficámos todos em blocos diferentes. Estávamos todos nervosos mas felizes… é um misto de sensações difícil de descrever. Há receios, mas muita adrenalina, vontade de ir com tudo, mas uma cabeça que nos diz para irmos com calma.

Já no meu bloco de partida, cruzei-me com um português, emigrante na Suíça, que me disse: “Isabel, não acredito que te encontrei aqui. Acompanhei todos os teus treinos. Vais fazer seguramente três horas e cinco minutos. Esta vai ser a minha primeira Maratona, conto terminar em três horas”.

É absolutamente maravilhoso sentir o carinho e o apego de alguém que tu não conheço, e saber que é uma coisa genuína. Mas olhem só o tempo que ele disse que eu ia fazer, malta. Uma coisa que tenho aprendido nas provas é refletir sobre aquilo que realmente importa. E o que realmente importa é sentires-te conectado com o teu corpo e feliz porque vais correr. Depois disso penso no meu foco. E só depois penso na competição. E essa é sempre comigo, e não com os outros. Nunca gostei de competir. Gosto de me superar, o que é bem diferente.

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Adorava saber se ele terminou em três horas. Espero que tenha concretizado os objetivos. Mas também queria dizer-vos que quando corremos uma maratona pela primeira vez, o importante é mesmo terminar bem. Nunca o nosso corpo passou por um desgaste tão grande, nunca foi obrigado a correr tantos quilómetros, vai enfrentar o desconhecido, por muito que nos tenhamos preparado. Quando não criamos uma expectativa, corre quase sempre bem. Quando é ao contrário, nem tanto.

Finalmente, ouvi o tiro de partida. Arranquei, com classe, profundamente feliz. Foi o início do fim desta minha aventura. Amanhã podem saber como tudo acaba, com o quarto episódio desta minha experiência que vou recordar a vida toda.

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Maratona de Berlim, dia 4. Tudo acaba bem quando nos sentimos bem (mesmo quando algo corre mal)

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 Maratona de Berlim, dia 2. Stressei, perdi o foco, mas aquele jantar valeu por tudo

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