Porque é que eu corro

Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
 

Porque é que corres?
Mas vais correr com chuva?
Ganhaste a prova?
Ficaste em que lugar?
Ganhas alguma coisa?

Sim. Eu também era daquelas que fazia este tipo de perguntas a um corredor. Hoje percebo que não fazem sentido.

Durante toda a minha vida sempre pratiquei exercício físico: primeiro porque a D. Lola e o Sr. Vítor me incutiram este estilo de vida e, consequentemente, ganhei amor ao desporto. Amor, sim. Faço com prazer sem nunca pôr em primeiro plano a operação biquíni do ano XPTO. Também ajuda, não nego, mas a prática regular do desporto é muito mais que isso: é sermos mais felizes, é rirmos mais, é trabalharmos melhor, é amarmos mais e melhor, é contagiarmos quem está ao nosso lado, é termos boas energias para dar e vender e ainda sobra. Eu gostava de propor ao meu chefe uma cláusula no meu contrato de trabalho que inclua a prática desportiva, pelo menos, 3 vezes por semana. É “certinho e direitinho” que vou ser mais rentável.

Com 4 anos já andava na ginástica rítmica, depois foi a natação, o ténis, o basquetebol (sim, o basquetebol. Posso adiantar-vos que não ficava a limpar o banco!), as danças no Colégio Liceal de Santa Maria de Lamas, as danças urbanas e latinas e, por fim, o ginásio. Com o ritmo de trabalho comecei a perceber que o ginásio seria a melhor opção. E de facto, ainda continua a ser. Eu escolho, consoante o meu trabalho, o meu horário de treino. Nem sempre é fácil conjugar, mas quando se ama algo, isso passa a ser uma das prioridades na tua vida. Não é assim? Agora estou a lembrar-me da quantidade de amigos e conhecidos que me dizem não ter tempo para treinar. Eu respondo sempre: 

 
Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
 


TREINAR É UMA QUESTÃO DE PRIORIDADE.

SÓ NÃO TEMOS TEMPO PARA AQUILO QUE NÃO QUEREMOS.
 

Gosto de desafios e de sair da minha zona de conforto. Gosto de aprender novas modalidades, novos exercícios e sentir que estou sempre a crescer e a melhorar a minha performance. Por causa disso e também pelo respeito ao meu corpo e saúde esforço-me por conciliar treinos cardiovasculares com treinos de força e de flexibilidade. Há uns que gosto mais do que outros, é certo. Mas para fazer melhor o que mais gosto preciso, muitas vezes, de treinar o que não gosto tanto. E o melhor exemplo disso, no meu caso, é o meu espírito de Runner Girl.

Foi no meu ginásio que conheci o Fernando e a Filomena. Hoje são amigos do coração, são os meus anjos da guarda e as minhas duas inspirações. Gosto tanto deles quanto eles gostam de praticar desporto. Fazemos todos o mesmo: aulas de bicicletas, aulas intervaladas de alta intensidade em 30 minutos, estabelecemos desafios, fazemos reforço muscular… Só uma modalidade nos separava: eles corriam e eu não.

– Isabel, tens de experimentar. Vamos na segunda-feira para Monsanto e corremos 1 hora. Vais gostar, confia… – dizia o Fernando muito motivador. 
– Eh pah… Não sei se aguento. 

Mas, caramba, se eles aguentam e gostam tanto, há algo então que me está a escapar. Vamos lá! E lá fomos. Monsanto. Comecei da melhor forma. Na melhor das companhias e numa atmosfera perfeita. Lembro-me que no dia anterior choveu e lembro-me de correr com “cheirinho a terra” no pulmão de Lisboa. Há que tempos não treinava na rua, há que tempos não sentia aquele ventinho a bater-me no rosto e que bom que é mudarmos a rotina do nosso treino. O meu coração de atleta permitiu-me concluir aquilo a que me propus: 10 Km. E não sentir as pernas no dia seguinte? Excelente. Sinal que estava demasiado acomodada aos meus treinos semanais, sinal de que já não saia há muito da minha zona de conforto.

– Já está! Já ninguém me tira daqui. 

Tudo isto aconteceu no início do ano de 2014. Desde então nunca mais paramos: eu, o Fernando, a Filomena…e todos os outros corredores que fui conhecendo.

 
Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
Isabel Silva a correr junto ao MAAT, na margem do Rio Tejo em Lisboa
 


QUEM CORRE É MAIS FELIZ
 

Correr não é uma moda. É muito mais que isso. Gosto sobretudo da comunidade de corredores e não estou a falar só dos atletas profissionais, estou a falar de todos: desde os mais novos aos mais velhos, o estado de espirito é o mesmo. Gosto de correr sozinha, mas gosto muito mais de correr acompanhada – temos um ombro amigo e que está ali para te impor ritmo e não te deixar desistir – gosto de terminar a corrida e perder 15 minutos com os meus companheiros a fazer um resumo sobre o nosso treino, enquanto comemos bananas e frutos secos. Rimos tanto às vezes… Quase sempre. É o cansaço bom a falar mais alto.

Gosto de correr em provas porque cria um objectivo para aquele dia e isso incentiva-te a treinar mais e melhor. Gosto de terminar a prova e conhecer gente que tem este amor e depois, também vou correr com eles se me convidarem. Caso contrário, convido eu. Gosto de terminar e prova e sentir-me orgulhosa de mim própria. “Conseguiste. Prova superada”. Gosto de acordar com as galinhas ao fim-de-semana para correr longas distâncias nos locais mais bonitos de Portugal. Há tantos grupos de corrida, é só juntar-me a eles e escolher. No final, criamos todos uma ligação. E a culpa é da corrida.

 
 

CORRO COM SAÚDE
 

Não quero cá lesões. E não permito que o entusiasmo fale mais alto que o cansaço, muitas vezes acumulado, do corpo. Durmo bem. Como bem. Não falho massagens semanais e o descanso também é treino. E só tens prazer a correr se treinares com qualidade. 3h15m na Maratona de Roma e um sorriso rasgado à chegada foram o resultado de muita paixão, dedicação e respeito pelo corpo. Eu quero ir a provas de 10 Km, de 22 Km, de 42 Km, aqui e lá fora. Quero melhorar os meus tempos nas subidas, nas descidas e quero muito correr para o resto da minha vida. Eu não escondo este meu entusiasmo doido. Eu vou conseguir fazer tudo isto. Mas tudo tem o seu tempo. E eu tenho todo o tempo do mundo.


HAJA ENERGIA!

 
 

Fotografias de André Nogueira