Meia Maratona de Valência

Isabel Silva a correr na meia maratona de Valência
Isabel Silva a correr na meia maratona de Valência
 

Valencia es oro...

Tudo começou depois de um dos meus treinos de corrida, quando partilhei com os meus colegas a vontade de um dia preparar-me especificamente para uma Meia Maratona. Preparar o meu corpo para correr 21.097 metros ao melhor ritmo possível. Já fiz algumas Meias Maratonas e recordo-me, por exemplo, que a Meia Maratona de Paris que foi, certamente, a mais empolgante de todas. Mas na altura, essa prova estava inserida num plano de treinos de preparação para a Maratona de Roma. Logo, não era Paris o meu foco, mas sim percorrer os 42.195 metros na cidade de Roma. Sabia que se me preparasse só para 21 Km iria ter mais velocidade e pareceu-me um desafio interessante. Não sou aquela corredora que vai a todas as provas, mas se for a muitas ao longo do ano, invisto mais energia em algumas e encaro as restantes como treino ou simplesmente diversão.

– E que tal a Meia Maratona de Valência? Ainda não correste em Espanha e, para além disso, foi considerada em 2014 e 2015 a meia maratona mais rápida do mundo! – sugeriram o João e o Rui.
– Super alinho! Vamos lá comprar dorsais, alugar uma casinha perto da partida e comprar as viagens! – respondi quase de imediato.

Foi precisamente o que fiz uns dias depois. Isto foi no mês de Julho. A 22 de Outubro tinha um objectivo a cumprir – bater o meu record pessoal de 1h30m na Meia Maratona. Mal aguentava a excitação!! Em Setembro começava a preparação à séria. Até lá “run for fun”!! Acabei por fazer 1h32m. Não bati o meu record e ainda assim foi a Meia Maratona mais prazerosa até hoje.


Explico-vos porquê:
 

2 semanas antes de iniciar a minha preparação lesionei-me no quarto metatarso do pé esquerdo. As causas podem ser as mais variadas: nesse dia corri com uns ténis relativamente novos e com pouco amortecimento, realizei um treino de velocidade, dormi pouco nesse dia, enfim, estamos sempre a aprender nesta vida de corredor. Caminhar com dor era suportável mas correr tornava-se impossível. Tudo o que tivesse o mínimo de impacto causava-me dor. Tive mesmo de parar. Parar de correr, mas acima de tudo parar para reflectir e mudar a minha estratégia e prioridade. Não retirei logo o meu principal foco de tentar melhorar a minha marca, mas sabia que antes disso, eu tinha de estar recuperada a 100%. Para mim não há maior tristeza do que aquela de correr com um dorsal ao peito e sentir a dor de uma lesão. Porque a dor do cansaço, essa no final quando cortas a meta, torna-se prazerosa, mas a outra não: a outra é colocar em causa todos as tuas próximas aspirações enquanto corredor.

A minha lesão não era grave. Garantiu-me o João Catalão, o meu parceiro de corrida e também o meu osteopata. Mas garantiu-me que seria uma lesão que ia pôr à prova a minha paciência e o meu espírito positivo: vai demorar a passar. Mas passa! Continuei a treinar mas apenas modalidades sem impacto como, por exemplo, RPM (treino de bicicletas indoor), alongamentos, E-FIT e Treino funcional adaptados às minhas necessidades. E de facto, há males que vêm por bem. Não fosse esta lesão eu nunca iria perceber de que há outras modalidades que eu também gosto de realizar e que, por vezes, também é bom direccionarmos a nossa atenção para outros exercícios. Descobri novos treinos de circuito de alta intensidade, novas técnicas de treino, novas sensações ao treinar e, também, a trabalhar outros músculos do meu corpo. E sei claramente que foram estes treinos que me permitiram correr 21 Km em Valencia a 4.22 min/km.

Ao longo das semanas de recuperação, mentalizei-me e cheguei à conclusão que eu, graças a Deus, tenho juventude e, por essa razão, não vão faltar oportunidades para correr outras Meias Maratonas. Recuperei aos poucos e quando tive o OK do João para começar a correr (a ritmo moderado), dei corda aos sapatos. Confesso que tinha medo de me confrontar com a dor e perceber que ainda estava em causa a minha ida a Valência. Bem sei que podia ir na mesma… Mas eu já me conheço. Ver os outros a correr e eu na plateia a ver? Não consigo. Ainda. Pelo menos por agora.

Esta “coisa” de distinguir dor de “moinha” é um desafio, principalmente quando tens receio de correr e de sentir novamente a dor. Mas é assim a vida de um corredor, não é verdade? Estamos sempre a descobrir novas sensações e a ganhar maturidade. Não fui com a dor, mas fui com a moinha para a prova... Bom, mas uma coisa é certa, correr eu ia conseguir, portanto, se é para ir, vou com tudo: atitude, coração e a minha velocidade prazerosa!!!


Não me permito correr sem ser de peito orgulhoso!
 

E viajei de propósito para Valência para representar o meu dorsal 1131. Dizem que correr em Valência é absolutamente maravilhoso: pelo apoio nas ruas, pela organização e pelo próprio percurso: por ser plano e por passar por zonas emblemáticas da cidade. Ouvir a música deles ao longo da prova encanta-me. Encanta-me o entusiasmo de quem nos apoia, fascina-me e deixa-me em pulgas escutar “Animo Isabel!!!!” e apreciar a admiração dos que olham para nós como heróis, só pelo facto de amarmos correr. Ali gritam por mim não porque eu sou a Isabel Silva, a apresentadora de televisão (eles lá sabem disso), mas sim pelo meu esforço e sorriso rasgado. 

Eram 7h30’ quando lá cheguei. Estava a temperatura ideal. Fiz o ritual de sempre: na fila para a casa de banho, a banana 45 minutos antes da prova, deixei os meus snacks e roupa com a organização e fui aquecer. Sem medo. Com entusiasmo e alegria. Lembro-me que quando estava a fazer 1 das 4 retas de aquecimento, pensei “agora não há dor que me pare. Agora quero é saborear esta prova e sorrir para todos aqueles que estão a apoiar esta incrível comunidade de corredores”. Ao longo da prova só olhei para o meu relógio ao Km 13. Era aquele o momento de tomar o meu gel para não me permitir quebrar. Estava a 4.15min/km. Boa Isabel. Não olhei mais. Até cortar a meta. 

Keep Going. Keep Smiling.
 

Fiz uma prova em ritmo constante e arrisquei sempre de forma segura. Pior que não fazeres o teu tempo é parares a meio de uma prova porque o entusiasmo falou mais alto e quebraste. Eu estava tranquila. Não tinha nenhum objectivo de tempo. Só de prazer. E esse foi cumprido. Levei mais dois minutos a chegar em comparação com a Meia Maratona dos Descobrimentos em Dezembro de 2015. Mas agora penso “Olha imagina se eu não tinha tido esta lesão e imagina se eu me tivesse preparado?”. Podia ter batido o meu record pessoal. Podia. Mas nada acontece por acaso. E o facto de esta lesão me ter obrigado a parar, acreditem, tornou-me numa corredora mais consciente e mais madura!


Valencia es Oro
 

Este é o mote da Meia Maratona de Valência. Preciosa medalha a minha!!! E posso garantir-vos: não sei quando, mas eu vou voltar. E quem sabe, não vamos todos juntos?